institucional educacao conservacao ecoacao cultura ecoligado

humberto teixeira

HUMBERTO TEIXEIRA, O DOUTOR DO BAIÃO

Quando se ouve o famoso baião Asa Branca, todo mundo lembra imediatamente de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pouca gente sabe que o popular compositor de Exu (PE) teve um parceiro, nesse e em muitos outros sucessos que estão na boca do povo há décadas pelo Brasil afora - caso de Assum Preto, Juazeiro, Paraíba e Qui nem Jiló. Esse parceiro se chamava Humberto Teixeira que além de letrista inspirado, também foi advogado e deputado federal. Conhecido como "Doutor do Baião", Teixeira notabilizou-se pela defesa dos direitos autorais dos músicos e pela divulgação internacional dos ritmos nacionais, através de uma lei de 1958 que levou o seu nome e fomentou a organização de caravanas anuais de música popular brasileira no exterior, entre os anos 50 e 60.

Humberto Cavalcante Teixeira (Humberto assinava Cavalcanti), nasceu em 05 de janeiro de 1915, em Iguatu, centro-sul do Ceará, no semi-árido nordestino. Sobrinho do maestro cearense Lafaiete Teixeira, desde criança interessou-se por música, sendo sua primeira composição a Valsa Triste. Estudou bandolim em Iguatu, e fez secundário em Fortaleza, CE, onde começou a aprender flauta com o maestro Antônio Moreira, da Orquestra Majestic. Aperfeiçoando-se no instrumento com seu tio Lafaiete, aos 13 anos teve sua primeira composição editada, Miss Hermengarda. Dois anos depois, deixou a capital cearense para fixar-se no Rio de Janeiro, com o objetivo de estudar medicina. Na então capital federal, continuou compondo regularmente e tendo suas músicas editadas.


Em 1934, seu samba Meu Pedacinho ficou em quinto lugar no concurso carnavalesco de sambas e marchas da revista O Malho, classificando-se ao lado de Ary Barroso, Ari Kerner, Índio, Capiba, José Maria de Abreu e outros nomes consagrados. Mas essa vitória não foi suficiente para que Teixeira alcançasse gravação. Continuou compondo suas valsas, toadas, "modas" e canções, todas editadas para piano por A Guitarra de Prata.

A partir de 1940 o Brasil e a música do povo sofreriam os reflexos da Segunda Guerra Mundial que se desenrolava ferozmente na Europa. Como não poderia deixar de ser, a música popular se ressentiu em qualidade e em quantidade. As emissoras de rádio estavam mais ocupadas em transmitir todos os lances do desenvolvimento do conflito do que apresentar novas músicas ou novos compositores. E os próprios compositores não encontravam, no clima de consternação que vivia o povo, os tantos elementos da alegria para fazê-lo cantar.

Acabou desistindo da medicina e optando pelo direito e e m 1943, diplomou-se pela Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, passando a exercer advocacia, paralelamente às atividades musicais. Seu primeiro êxito em gravação foi Sinfonia do Café (com Lírio Panicali), feita especialmente para Muiraquitã, espetáculo encenado no Teatro Municipal. Lançada por Déo na Continental, a Sinfonia do Café, que ocupava as duas faces do 78 RPM, abriu caminho para a gravação de outras composições de Humberto Teixeira, algumas de grande sucesso na época: Deus Me Perdoe (Ciro Monteiro), Só uma Louca Não Vê (Orlando Silva), Meu Brotinho (Francisco Carlos) e Natalina (Quatro Azes e Um Coringa).

O fim da guerra indiretamente trouxe uma avalanche de músicas norte-americanas ou importadas pelos Estados Unidos e despejadas em todo o mundo, sobretudo no Brasil. O fenômeno, aliás, é de fácil compreensão quando se analisa o fato de que os Estados Unidos saíram da segunda grande guerra como país vitorioso e em fase de expansão mundial, que era feita pela exportação internacional em massa de seu poderoso parque industrial, atrás do qual vinha a indústria da diversão. A indústria do lazer representava a consolidação cultural norte-americana no mundo dos filmes: os filmes, os discos e a música popular, com todos os seus modismos, ainda mais sedutores pelas engenhosas campanhas de marketing com que eram promovidos.


Mas, "por uma questão de predestinação", como sempre dizia Humberto, um dia o destino o aproximaria de Luiz Gonzaga para, juntos, lançarem o baião, como afirmação de uma cultura nacional mais ligada às fontes telúricas do Brasil. Em 1945 Luiz Gonzaga estava à procura de um letrista que se interessasse pelos ritmos nordestinos, pouco conhecidos no restante do país. Luiz resolveu procurar um parceiro nordestino, Lauro Maia, de quem conhecia algumas composições gravadas pelos Quatro Azes e Um Coringa, também cearenses. Maia, com muita modéstia escusou-se de tomar parte na iniciativa proposta por Luiz, mas indicou-lhe um cunhado (Lauro Maia era casado com uma das irmãs de Humberto, Djanira Teixeira) que poderia ajudá-lo: Humberto Teixeira. Recém-formado pela Faculdade Nacional de Direito, Humberto ensaiava, paralelamente às atividades musicais, os primeiros passos de advogado, num escritório da Av. Calógeras, no centro do Rio. E foi lá, numa tarde de agosto de 1945, que recebeu o moreno simpático, de cabeça chata e sorriso rasgado, buscando um parceiro para a empreitada de lançar no Rio a autêntica "música do norte".

baião

Do longo papo que se prolongou noite adentro, surgiram os primeiros compassos de Pé de Serra, e a "sanfonização" de uma linda peça que viria a se tornar na imortal Asa Branca (esta música foi considerada, recentemente, como a segunda música popular mais bonita do século, atrás de Aquarela do Brasil). O mais importante daquele encontro, porém, foi o comum acordo a que chegaram a respeito do baião: entre os inúmeros ritmos nordestinos, aquele era o mais "estilizável" e "urbanizável". O mais apropriado, portanto, em suas características e tipicidade, para lançamento da campanha musical que os dois resolveram deflagrar a partir daquele momento.

Assim nasceu o Baião ("Eu vou mostrar pra vocês como se dança um baião..."), primeiro desse gênero gravado em todo o mundo. Sem o ad libitum tão comum nas "modas" do norte, numa batida uniforme do princípio ao fim ("feito pra dançar"), o baião de Humberto e Luiz substituía os instrumentos originais (viola, pandeiro, botijão e rabeca) pelo acordeon, triângulo e zabumba. Resultado: uma melodia singela, de sabor gregoriano, com versos simples e impregnados de modismos tipicamente nordestinos.

Foi uma revolução. A música popular brasileira, que então oscilava entre o samba-canção e os ritmos importados dos Estados Unidos, foi surpreendida por algo completamente novo e gostoso, o baião, que deu uma sacudida em quatro séculos de nossa música. Houve, a partir daí, uma mudança de rumos da MPB. O ritmo buliçoso e descontraído do baião, com todo o Nordeste dentro dele, através de suas histórias e de seu povo, foi a moldura ideal para os êxitos de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira.


Asa Branca
(Humberto Teixeira - Luiz gonzaga)

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu, uai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Para eu voltar pro meu sertão

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

Em 1946, foram gravadas Deus me perdoe e Só uma louca não vê (ambas com Lauro Maia), respectivamente, por Ciro Monteiro, na Victor, e Orlando Silva, na Odeon. Ainda nesse ano, lançou a primeira composição com Luís Gonzaga, Baião, interpretada pelos Quatro Ases e Um Curinga em disco Odeon, em que apareciam instrumentos como acordeon, triângulo e zabumba, pouco divulgados no cenário musical da época, dominado pelo samba, samba-canção e ritmos importados.

O lançamento do primeiro baião teve grande sucesso e deu início a uma série de êxitos da dupla, que durou até inícios da década de 1950, como Asa Branca, No Meu Pé de Serra, Mangaratiba, Juazeiro, Paraíba, Qui Nem Jiló, Baião de Dois, Assum Preto e Lorota Boa, entre outros. Em toda parte só se ouvia o baião, e compositores do Sul, como Hervê Cordovil e Waldir Azevedo, logo aderiram. Humberto Teixeira ficou conhecido como o "Doutor do Baião". Apesar de ser conhecido como "letrista" de Luiz Gonzaga, Humberto também tem composições só suas, como o baião Kalu, grande sucesso na voz de Dalva de Oliveira. Outros parceiros foram Sivuca (com quem compôs Adeus, Maria Fulô, que teve leitura psicodélica feita pelos Mutantes em 1968), seu cunhado Lauro Maia (Deus Me Perdoe, Só uma Louca Não Vê, Poema Imortal)  e Lírio Panicalli (Sinfonia do Café). Mas de todas as músicas compostas em parceria com Luiz Gonzaga uma viria a obter repercussão tal que vararia as décadas e se incorporaria às canções dos corações brasileiros. A toada Asa Branca teve êxito em todo o Brasil (1947), sobretudo no Nordeste, onde se transformaria em hino dos sofrimentos da população vitimada pela seca.


Graças à força e à veemência de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, o baião não somente se reteria nos anos 50 - a década do samba-canção - como determinaria o aparecimento de dezenas de intérpretes e compositores, o maior dos quais Jackson do Pandeiro (José Gomes Filho: Lagoa Grande, PB, 1919 - Rio, 1982), exibiria um tal sentido rítmico para cantar cocos (gênero musical nordestino de andamento bem mais acelerado que o baião) que nunca foi igualado, nem antes dele (gente como Manezinho Araújo, Jararaca e Ratinho ou Alvarenga e Ranchinho), nem depois (gente como Alceu Valença, Xangai, Jorge do Altinho, Elomar ou o recentíssimo Chico César).

Humberto Teixeira, Gonzaga e o baião à frente, é claro - tiveram tanto êxito que até o esboço de uma "corte" foi desenhada nos anos 50: o rei Luís Gonzaga, uma rainha, a cantora Carmélia Alves, festejada intérprete até hoje em atividade e que contabiliza inúmeros sucessos individuais, e uma princesa, a cantora Claudette Soares, depois uma intérprete ligada à bossa nova e à música romântica. Além da realeza do baião, outros súditos se agregariam: Zé do Norte, Zé Gonzaga (irmão de Luís) e Vanja Orico, cantora e atriz internacional (lançada por F. Fellini na Itália - 1948), que colheu um triunfo mundial com a trilha de O cangaceiro (Lima Barreto, 1953), especialmente Muié Rendeira.

humberto

Foi eleito três vezes consecutivas o melhor compositor do Brasil pela crítica especializada do Rio de Janeiro. Criou programas geniais na Rádio Nacional, dentre eles "No mundo do Baião", em parceria com o genial Zé Dantas, onde conquistava um espaço definitivo para a música nordestina.

Por 1950 desfez a parceria, depois de eleito deputado federal, tendo obtido votação maciça no Ceará, após campanha apoiada por seu trabalho musical com Luís Gonzaga. Foi batalhador incansável pela consolidação dos Direitos Autorais, até então inexistentes. Em 1958 conseguiu a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei Humberto Teixeira, para a formação de caravanas artísticas de divulgação da música popular brasileira no exterior. A primeira delas foi no mesmo ano para a Europa, integrada pelo conjunto Os Brasileiros, do qual faziam parte o Trio Iraquitã, os instrumentistas Abel Ferreira, Sivuca, Pernambuco, Dimas e o maestro Guio de Morais, apresentando-se em várias capitais. Seguiram-se várias caravanas, até 1964, sempre dirigidas por ele, que se tornou compositor internacionalmente conhecido, com obras gravadas em vários idiomas.

Em 1966, Asa branca foi regravada por Geraldo Vandré no LP Hora de Lutar (RGE). A partir de 1967, reiniciou sua luta pelo direito autoral, sendo eleito, em 1971, vice-diretor da UBC. Um ano depois, o grupo baiano liderado por Gilberto Gil e Caetano Veloso interessou-se pelo baião, tendo incluído em seu repertório vários sucessos seus com Luís Gonzaga. Na Philips, Caetano Veloso gravou Asa Branca e Gal Costa, Assum Preto. Além disso, outras músicas da dupla foram incluídas em shows do grupo. Teve mais de 400 composições gravadas por importantes intérpretes da nossa música, como Carmélia Alves, Orlando Silva e Araci de Almeida, entre muitos outros. Além de Luís Gonzaga, Felícia Godói e Lauro Maia foram seus parceiros constantes, tendo composto ainda com Sivuca e com o maestro Copinha. Obteve grande sucesso com o baião, mas escreveu também sambas, marchas, xotes, sambas-canções e toadas.

Humberto faleceu no Rio de Janeiro em 03 de outubro de 1979, vítima de enfarto, depois de uma pródiga carreira de 35 anos de muito sucesso. Deixou uma única filha, a atriz Denise Dumont.


Mangaratiba
(Humberto Teixeira – Luiz Gonzaga)


Ôi, lá vai o trem rodando estrada arriba
Pronde é que ele vai ?
Mangaratiba! Mangaratiba! Mangaratiba!
Adeus Pati, Araruama e Guaratiba
Vou parar Ibacanhema, vou até Mangaratiba!
Adeus Alegre, Paquetá, adeus Guaíba
Meu fim de semana vai ser em Mangaratiba!
Oh!Mangarati, Mangarati, Mangaratiba!
Mangaratiba!
Lá tem banan, tem palmito e tem caqui
E quando faz luar, tem violão e parati
O mar é belo, lembra o seio de Ceci
Arfando com ternura, juntoà praia Guity
Oh!Mangarati, Mangarati, Mangaratiba!
Mangaratiba!
Lá tem garotas tão bonitas quanto aqui:
Zazá, Carime, Ivete, Ana Maria e Leni
Amada vila junto ao mar Sepetiba
Recebe o meu abraço, sou teu fã
Mangaratiba!
Mangaratiba! Mangaratiba!

A ligação de Humberto Teixeira com Mangaratiba foi estreita. Em meados da década de 40, o compositor construiu a primeira casa na praia de Guity. Como gostava de dar nome às suas casas, Humberto a chamou de Ibacanhema (ybaca=céu + canhema=fugir = fugir pro céu = refúgio no céu). Este era o seu retiro de férias e fins de semana com a família, onde periodicamente recebia ícones da música brasileira como o parceiro Luiz Gonzaga, Carmélia Alves, Dalva de Oliveira, dentre outros. Com o parceiro Lua, compôs a música Mangaratiba , sucesso nas rádios de todo o Brasil na época, eternizando sua paixão pela cidade. Em sua homenagem, a principal rua do bairro Guity leva seu nome.

Denise Dumont vem desenvolvendo importante trabalho de documentação da obra de Humberto e, atualmente, é responsável por diversos projetos relacionados com a divulgação do trabalho do importante compositor. Em 2002, a gravadora Biscoito Fino lançou um CD em sua homenagem, intitulado “O Doutor do Baião”, com os seus maiores sucessos interpretados por artistas consagrados da MPB como Elba Ramalho, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Lenine, Fagner, dentre outros, com direção musical de Wagner Tiso. Em 27 de agosto do mesmo ano, o I Prêmio Rival BR de Música criado para premiar novos talentos e trabalhos lançados por gravadoras independentes, teve como grande homenageado Humberto, cujo show de encerramento apresentou seus sucesso cantados pelos mesmos intérpretes que gravaram o CD.


Em outubro de 2003, o Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará inaugurou em sua sede do Benfica em Fortaleza, o Memorial Humberto Teixeira. No Memorial Humberto Teixeira, os visitantes podem encontrar 21 posters com fotos históricas e informações sobre a vida e a obra do compositor cearense.

Coordenado por Denise em parceria com Ana Lontra Jobim e Ricardo Cravo Albin, em 2006 foi lançado o livro “O Cancioneiro Humberto Teixeira”, com dois volumes, um a biografia do artista e outro, uma seleção com letras e partituras de seus grandes sucessos.

Ainda em sua homenagem e reconhecimento, foi batizada com seu nome a Rodovia CE-021, que liga Iguatu a Fortaleza, a Agência do banco do Nordeste do Brasil de Iguatu, o Centro Cultural Iguatuense e o Parque de Vaquejada Humberto Teixeira também em Iguatu.

Em julho de 2008, foi apresentado em primeira mão o documentário sobre Humberto intitulado “O Homem que Engarrafava Nuvens” durante o Premiére Brazil, festival de cinema brasileiro que ocupa, há seis anos, o MoMa de Manhattan. O filme, dirigido pelo cineasta Lírio Ferreira, e produzido e roteirizado pela atriz Denise Dummont, filha do compositor, foi definido como “um rico exame da  cultura do

ibacanhema
Ibacanhema - Humberto e seu veleiro Asa Branca


Ibacanhema
(Humberto Teixeira)

Ibacanhema,
O mar criança, o arrebol
Uma paz de capelinha
Que dormita à luz do sol.

país através da obra de Humberto Teixeira”. Docudrama musical, o longa, com fotografia de Walter Carvalho e edição de Mair Tavares, traz imagens de Chico Buarque, Caetano Veloso, David Byrne, Bebel Gilberto, Patativa do Assaré, Zeca Pagodinho e da banda nova-iorquina Forro in the Dark, entre outros artistas, em depoimentos e interpretações de obras de Teixeira. A obra consumiu sete anos de trabalho. As dificuldades financeiras enfrentadas pela produção, tocada em parceria com a carioca Total Filmes, prolongaram o trabalho. A produção de "O Homem que Engarrafava Nuvens" não aproxima apenas o personagem de seu país, mas a filha do pai. Denise viajou com diretor e equipe para o sertão do Cariri, interior do Ceará, e passou, pela primeira vez, por lugares como Iguatu, Exu, cidade natal de Luiz Gonzaga, Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Além de reconstruir a memória de Teixeira, resgatou a relação com a mãe, Margarida, que veio a falecer seis meses depois de gravar a entrevista para o documentário. O nome do longa-metragem remete a uma frase do próprio Doutor do Baião, da época em que abandonara a vida pública, nos anos 70. Como morava numa casa no alto de São Conrado, quando comentavam que ele estava muito recluso em casa, dizia que estava com a filha, engarrafando nuvens.


teixeira

O Esquecimento da Mídia e de Historiadores da MPB

Os arquivos dos jornais brasileiros - inclusive os cearenses - são incrivelmente pobres em relação a Humberto Teixeira. Quase nada foi registrado enquanto o “Doutor do Baião” estava vivo. Com sua morte, o nome do autor de Asa Branca caiu, inexplicavelmente, em um esquecimento ainda maior.

De tão pouco lembrado, o destino já fez sua fama: ser o compositor esquecido das grandes músicas que marcaram parte da vida musical do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga. Pois se poucos artistas conseguiram mergulhar na alma nordestina como Gonzagão, era Humberto Teixeira que estava por trás de inúmeras composições, como Assum Preto, Paraíba, Juazeiro e, principalmente, Asa Branca. Qualquer criança conhece Asa Branca, mas ninguém sabe quem foi Humberto Teixeira. Cantadas ao som do resfolego da sanfona do velho Lua e ouvidas pelo Brasil inteiro, a marca de uma gente que canta, apesar das dores constantes. Ali estava a assinatura deste cearense de Iguatu, que para muitos acabou esquecido nos créditos miúdos dos discos de seus intérpretes. Apesar disso, não é preciso puxar muito da memória para lembrar algumas de suas composições.


É fácil encontrar material sobre o choro, samba, samba-canção, bossa nova, jovem guarda e tropicália, mas muito pouco referente ao baião. A mídia e os historiadores se esqueceram dessa importante fase da música popular brasileira, deixando um hiato entre as décadas de 40 e 50. Mas vale lembrar que de 47 a 57, quer queiram, quer não, os documentos, os suplementos, as fábricas, as gravadoras, o rendimento autoral das sociedades, tudo era feito em torno do baião. Luiz Gonzaga inclusive manifestou-se magoado com relação a esse descaso. Humberto referia-se a esses pesquisadores como principiantes, aprendizes de historiadores da música popular brasileira, todos muito falhos, com algumas exceções.

O forró, diferentemente dos diversos gêneros musicais brasileiros, tem data, hora e local de nascimento, assim como o nome dos pais. O parto começou em uma tarde de agosto, de 1945, na Avenida Calógeras, no escritório do advogado Humberto Teixeira, no centro do Rio de Janeiro. Os trabalhos de parto só findaram na alta madrugada, quando vieram ao mundo os gêmeos Asa Branca e Baião.

O baião, com variações no andamento, recebeu outras denominações, como rojão, xote, xenhenhém, uma reunião de ritmos agrupados na generalização chamada de forró. Reza a lenda que forró é corruptela da expressão inglesa “for all”. Os ingleses que construíam as primeiras ferrovias no sertão pernambucano organizavam bailes aos quais davam o nome de “For all”, ou “Para todos” em português. A palavra, na verdade, deriva-se de forrobodó, usada para designar os bailes, animados no sertão por um tocador de oito baixos, ou pé-de-bode, e percussão (zabumba e ganzá). Numa onda estrondosa, hoje o baião invade os bailes, unindo gente de todas as idades, principalmente jovens aderindo firmemente ao estilo. É tardio, mas é o merecido reconhecimento a este gênio da poesia e da música brasileira.


O Homem que Engarrafava Nuvens

O filme "O Homem que Engarrafava Nuvens" foi lançado no Brasil durante o Festival de Cinema do Rio. Na sexta-feira, 03 de outubro, o Cine Palácio estava com a sala repleta de admiradores da obra de Humberto Teixeira, centenas de amigos, atores e músicos. O documentário idealizado pela filha de Humberto, Denise Dumont, sob a direção de Lírio Ferreira, é uma verdadeira obra-prima, um marco na história da música e do cine-documentário brasileiro. Com roteiro e fotografia impecável, de forma leve e cativante, o filme caminha pela história do compositor de Asa Branca e ínúmeros sucessos, mostrando o importante papel do baião na cultura nacional, com depoimentos de familiares, amigos e importantes artistas, como Gilberto Gil, Sivuca, Caetano Veloso, Otto, Belchior, Fagner, Calé Alencar, dentre outros. O pesquisador Nirez também não poderia ficar de fora. Lá estava ele.

Não querendo exagerar, mas parece que a história da música brasileira hoje está resumida em antes e depois de "O Homem que Engarrafava Nuvens". A história da música brasileira agora sim está completa. O filme vem ocupar o hiato que faltava, o período esquecido pela maioria da mídia e pesquisadores. Para quem está acostumado com informações maciças sobre bossa nova, samba, jovem guarda, tropicalismo,  rock  brasileiro,  vai  ter  o  contato  real  com a música

teixeira

genuinamente brasileira, o baião. Gilberto Gil, no filme, define muito bem quando fala das duas dinastias da música nacional: o samba e o baião. Não existe nada mais característico e forte para conceituar a base de nossa música.  


Lírio Ferreira e Denise Dumont na apresentação do filme
no Festival de Cinema do Rio

A obra navega do rural ao urbano, indo fundo na cultura nordestina e mostrando como Humberto e Gonzagão conseguiram disseminar o vírus do forró nas veias do urbano brasileiro. Como Otto define bem no documentário, os dois foram simplesmente a pólvora e o canhão, respecitvamente. Destaque para os takes das apresentações de seus maiores sucessos por intérpretes da MPB, por ocasião do I Prêmio Rival BR de Música, em 2002. No meio de tanta porcaria que inunda o mercado fonográfico nacional nos últimos tempos, "O Homem que Engarrafava Nuvens" é um manjar dos Deuses. Vale a pena conferir. Tenho certeza que o bonequinho vai aplaudir de pé. (clique aqui e assista ao trailer do filme)

Ricardo Marandino Teixeira.



EGO - 03/10/08 - 21h24 - Atualizado em 03/10/08 - 21h24
Lírio Ferreira apresenta 'O homem que engarrafava nuvens' no Festival do Rio
Os cantores Fagner e Preta Gil estavam entre os convidados que assistiram ao documentário nesta sexta-feira, 3

A estréia de "O homem que engarrafava nuvens", documentário de Lírio Ferreira sobre Humberto Teixeira, reuniu músicos, atores e cineastas, nesta sexta-feira, 3, no Festival do Rio . No hall do Cine Palácio, Antonio Pitanga colocava uma pulseira vip em Fagner. "Quer apertado ou frouxo? Está vendo? Nem doeu", brincava Pitanga. "Conheço-o há muito tempo. Ele sempre foi um lateral que nos preocupava muito com a subida, lá no futebol do Chico. A Camila e o Rocco estavam sempre lá perturbando a gente", disse o músico. A propósito: Chico Buarque , presença aguardada na noite, não compareceu.

fagner
Fagner e Antonio Pitanga, na pré-estréia de "Um homem que engarrafava nuvens",
no festival do Rio, nesta sexta-feira, 3

Preta Gil chegou logo depois. Diante de flashes dos fotógrafos, uma assessora comentou com a atriz: "Não falei que você ia arrasar?". Preta confessou que era "iniciante" em Humberto Teixeira. "Não conheço a história dele, mas acho que o cinema é uma ótima forma de aprender. Vim pelo Lírio e a Denise, que produziu o longa, é amiga da minha mãe. O filme é musical e tem a ver com as duas artes que eu escolhi para a minha vida, que é a interpretação e a música", disse Preta. 

produção
A turma do cinema brasileiro: os cineastas Eick Rocha, Lírio Ferreira,
Claudio Assis e a produtora Vilma Lustosa

Daniel Filho chegou com sua filha Carla Daniel e brincou com um fotógrafo, que estava devagar-quase-parando: "Você vai filmar ou vai fotografar? ". Mais animado estava o diretor Lírio Ferreira. "Esse é o cara! Esse é o cara!", afirmava para cada um de seus pares de classe que passava por ali. Primeiro, o "cara" era Erick Rocha, filho de Glauber Rocha; depois, o diretor Claudio Assis. Por via das dúvidas, Lírio tirou fotos posando com os dois, antes de entrar para assistir seu filme.



QUEM NEWS - 04/10/2008 09:24
Famosos conferem "O homem que engarrafava nuvens" no Festival do Rio
Preta Gil e Fagner assistiram ao documentário na noite de sábado

preta

A lista de convidados para a exibição de “O homem que engarrafava nuvens”, de Lírio Ferreira , sexta-feira (03), no Cine Palácio, foi uma das mais ecléticas do Festival do Rio. Entre os convidados famosos estavam Preta Gil e Alceu Valença , além dos atores Nilton Parente , Joana Limaverde , e o produtor do filme, Daniel Filho.


O documentário é um musical sobre a vida e a obra do compositor, advogado, deputado federal e criador das leis de direitos autorais, Humberto Teixeira , também conhecido como “O Doutor do Baião” pela autoria de clássicos populares como “Asa Branca”. O filme acompanha sua filha, Denise Dummont , numa viagem em busca de aprender mais sobre o pai.

“Adoro cinema, mas só vou uma vez ou outra”, comentou Fagner , enquanto Antônio Pitanga , amigo de longa data, colocava uma pulseirinha vip em seu braço. “Pitanga é meu amigo há muitos anos, do campo do Chico ( Buarque )”, lembrou o cantor. Preta Gil falou sobre a expectativa de assistir ao primeiro filme durante o festival. “Vim prestigiar o Lírio que é um amigo de quem gosto muito. E o filme é produzido pela Denise (Dumont), que é amiga da minha mãe. Adoro musical porque une as duas artes de que eu mais gosto: atuar e cantar”, disse.

Antes da exibição do documentário, o diretor lamentou o fechamento do Cine Palácio. “É uma felicidade muito grande estar aqui hoje. Estamos fazendo este filme desde 2002. Mas é triste saber que vamos estar em cartaz nesta sala apenas uma vez porque o cinema de rua simplesmente fecha as portas”, declarou.

denise dumont
Denise Dumont

Após a sessão, Joana Limaverde era uma das mais empolgadas: “Adorei! Minha família toda é do Ceará, morei lá até os 10 anos. Meu pai, Edinardo , que veio comigo, sempre cantou várias músicas do Humberto e agora eu pude conhecer este imaginário. A nossa cultura não é só bossa nova”. Antônio Pitanga também deu nota 10 para o musical. “Maravilhoso, nota 10 para a edição e a pesquisa. É um mergulho no mais poético e importante da memória deste compositor. De forma humana o filme relata e trás esse grande segmento que é o baião. O Humberto é um dos pilares do gênero”, disse.

Para o produtor Daniel Filho, um dos aspectos mais interessantes é o fato das músicas de Humberto Teixeira estarem gravadas na mente dos jovens apesar de não identificadas. “A maioria dos jovens conhece as músicas, mas não sabe de quem é”, explicou.



DOCBLOG - 3/10/2008 - 0:40
O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS – Première Brasil

lua

Felipe Messina

O Homem Que Engarrafava Nuvens não deixa de ser um título de literatura de cordel. Tem cheiro de licença poética que, aliás, fica demarcada desde o princípio neste filme de Lírio Ferreira. Dentre as tantas referências utilizadas pelo diretor, as tradições nordestinas da cultura popular são elemento fundamental neste trabalho. É bom que se diga: popular e rica. Estas referências remetem ao universo do personagem Humberto Teixeira, advogado, poeta, compositor e um dos maiores criadores e defensores do baião. Pode não ter inventado o ritmo mas o baião nunca mais foi o mesmo depois dele. E não apenas o baião.

Humberto é mais próximo ao brasileiro do que se pode imaginar. Quem nunca cantarolou a melodia de Asa Branca? Se os versos são íntimos, a figura do dono do texto é muito pouco conhecida. Assim Teixeira caminha no filme: um personagem cujas palavras estão sempre presentes mas o semblante é quase invisível. Seu trabalho talvez seja mais atribuído ao parceiro Luiz Gonzaga, com quem dividiu a batalha de gravar o primeiro disco de baião da história. Juntos entoaram um sem número de canções e colocaram o baião como uma das principais bases da cultura brasileira. Assim entendemos um pouco melhor a presença da sanfona e do chapéu de couro. O filme de Lírio Ferreira, mesmo fazendo questão de apontar imprecisões, carrega a voz de vários personagens que vão colocar o baião ao lado do samba como um dos pilares fundamentais de nossa tradição musical. É o berço da música que ganha o mundo a cada dia e se faz universal.

Há de se frisar o detalhe de que Lírio não vem mesmo só, como de costume. Este documentário é também projeto de Denise Dumont, filha de Humberto. Ela assina a produção. Desde o primeiro plano, este elo familiar fica demarcado quando Denise apresenta sua origem e diz, talvez rapidamente, que o filme é também a caminhada de uma filha na tentativa de conhecer melhor o pai. Este pilar confere ao percurso uma base distinta porque pessoal e intransferível. Mesmo que tentem, podem até questionar o documentário mas nele há um terreno em que só ela consegue entrar. Pertence a Denise e a mais ninguém. Mas este ingrediente não é o único e nem dele se sente o sabor o tempo todo. Não é apenas uma louvação pois o personagem aparece com sua altitude mas também com suas ranhuras.

Para além da filha, Lírio vem bem acompanhado de outros companheiros de cinema. Se “o homem engarrafava nuvens”, há também o homem que encaixota a luz. Walter Carvalho dirige a fotografia e movimenta sua câmera com a capacidade de buscar o detalhe, dar ritmo à dança e sair da cena na hora em que a ação necessita de respiro ou demanda uma intimidade que não deve ser filmada.

A bela e burilada montagem é assinada por Mair Tavares e Daniel Garcia. Está aqui um dos principais detalhes deste documentário. Mair também acompanhou Lírio em Cartola - Música Para os Olhos . Entender a edição de O Homem Que Engarrafava Nuvens é perceber que esse trabalho não começou aqui. Vem de antes a tentativa de se praticar um certo tipo de montagem, de se buscar um filme fluido e bem concatenado. Pode-se afirmar que um estilo próprio de organizar o pensamento foi perseguido e aqui acontece bem neste filme que quase beira a um texto de versos. O documentário é composto de inúmeros fragmentos mas muito bem costurados, cheio de referências cinematográficas e bom trabalho de pesquisa. O áudio por vezes é unha e carne da imagem mas em outros momentos não lhe diz tanto respeito. Acontece então uma fartura de informação e cada um pode escolher qual caminho seguir. Pode-se simplesmente respirar o quadro enquanto se escutam as palavras. São as pegadas de liberdade que Mair já experimentou em outros tempos, como em A Lira do Delirio (1978) de Walter Lima Jr. Aliadas ao bom roteiro de Lírio, frutificam um resultado notável que confere independência às mais variadas cenas mas que, perfiladas, narram a boa história.

Para além disso tudo há um imenso e forte fio condutor. O ingrediente principal não está no personagem ou na capacidade dos que neste filme trabalharam. O pernambucano Lírio já dirigiu bem antes. O paraibano Walter já fotografou de maneira exímia. O cearense Mair tem extenso currículo. Os baianos, alagoanos, italianos, portugueses, africanos e até mesmo americanos já apareceram cantando muito bem em outros dias. Sua aproximação está no sentimento que todos eles tiveram e que Humberto soube transmitir com maestria e simplicidade. É esse gosto da saudade que arde o peito; é este sonho do mundo sem fronteiras; é esta lembrança dos tempos da infância perdida; é esta falta da família distante; é essa coragem de enfrentar novas terras e suas grandes cidades; é essa ausência dos dias que nunca serão vividos; é esta dor que por mais triste que seja pode ser cantada belamente. E ali são todos eles iguais.



TERRA - Sábado, 4 de outubro de 2008, 12h15 Atualizada às 14h14
Preta Gil assiste a documentário sobre Humberto Teixeira

Preta Gil comprou pipoca e refrigerante para assistir a sessão do documentário O Homem que Engarrafava Nuvens , no cine Palácio, no Rio.

Antes da obra começar a ser reproduzida na tela, o diretor do filme, Lírio Ferreira, discursou para os presentes.

A sessão reuniu famosos. Na platéia estavam: o diretor Daniel Filho, o cantor Fagner, o ator Antônio Pitanga e o Cantor Alceu Valença.

O Homem que Engarrafava Nuvens é um documentário musical sobre a vida e a obra do compositor, advogado, deputado federal e criador das leis de direitos autorais, Humberto Teixeira, também conhecido como 'O Doutor do Baião' pela autoria de clássicos populares como Asa Branca .

O filme acompanha sua filha, Denise Dummont, numa viagem em busca de aprender mais sobre o pai.



BLOG DO CHICO MACEDO - Sábado, 4 de Outubro de 2008
"O sertanejo é um homem que planta e dança"

Sexta-feira à noite (3). Vou ao cinema. Nada de bom em cartaz nas salas próximas. Chequei a programação do Festival de Cinema do Rio. Legal. Assistiria ao documentário O homem que engarrafava nuvens , no Palácio, na Cinelândia. O filme conta a história de Humberto Teixeira, conhece? E a música Asa Branca, conhece?

Pois é. Cearense de Iguatu, o compositor, letrista, advogado, autor da lei de Direitos Autorais, e deputado federal, Humberto Teixeira, foi o responsável ao lado de Luiz Gonzaga pela explosão do Baião no Rio de Janeiro e no país inteiro. E, acreditem, no exterior também. Asa Branca foi uma das mais de 400 músicas desse artista.

Humberto Teixeira nasceu em 1915 e morreu em 3 de outubro de 1979. Exatos 29 anos antes daquela que, por desatenção minha, achava ser só mais uma sessão de cinema. Não era. Sem querer, estava indo a minha primeira avant première. Melhor pré-estréia, né? Ato falho, desculpa. O tapete vermelho, flashes, vips e a verdadeira invasão de óculos de armação quadradinha me subiram à cabeça por um instante.

Antes de chegar à bilheteria, já havia cumprimentado o senhor Raimundo Fagner. Segurei a tietagem, mas disse que respeitava o trabalho dele e que era um prazer conhecê-lo pessoalmente. Não, não falei nada sobre “borbulhas de amor”.

Dentro da sala lotada (Quase um Cine Brasília, mas nem tanto), garanti meu lugar e ainda vi de longe o senhor Alceu Valença, que também prestigiava aquela noite que, definitivamente, não se tratava mais de um cineminha de sexta à noite.

Antes do início da sessão, atraso e discurso de Denise Dummont, filha de Humberto Teixeira, idealizadora do documentário. Falou também o diretor Lírio Ferreira (Baile Perfumado, Árido Movie, Cartola). A expectativa quanto ao filme aumentou: gostava do personagem, de música e de documentário. Não poderia dar errado.

Não deu. Os cerca de 100 minutos seguintes foram de total imersão na história de um sujeito genial, que teve a sorte de ter sua trajetória de vida contada por profissionais competentes, bons pesquisadores e de grande sensibilidade para entender que a distância da dupla Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga para um cego nordestino, músico de feira, é pequena. Eles se misturam. Um bebe na fonte do outro. É folclore com Direito Autoral.

Faço parte da primeira geração da minha família a nascer na cidade, em hospital. Não acredito que este seja um privilégio meu. Essa coisa de urbanidade é recente para parte considerável da população brasileira. O êxodo rural é um fenômeno que meus pais viveram e meus pais são novos. O brasileiro urbano de hoje ainda tem sua raiz sertaneja viva. Por essas e outras, acho difícil assistir ao Homem que engarrafava nuvens sem se envolver, sem ficar mexendo na cadeira com vontade de dançar forró.

Mas se é uma besteira isso tudo o que disse, relaciono abaixo alguns dos artistas que dão depoimento sobre Humberto Teixeira e/ou interpretam algumas de suas canções no filme: Carmem Miranda, Luiz Gonzaga, Fagner, Alceu Valença, Elba Ramalho, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil, Sivuca, Bebel Gilberto, Otto, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Lenine, Raul Seixas e Chico Buarque. Chico Buarque? Isso mesmo.

Sobre o Raul, foi incrível. O filme passando, eu embasbacado e pensando: “Poxa, poderiam fazer uma referência ao Raul.” Afinal, ele misturou como ninguém o Rock com o Baião. Como que por mágica, surge o Raul na tela cantando Let me sing seguido de Asa Branca. Eu tive vontade de comemorar como se fosse um gol. Foi muito mais do que uma referência, falou-se consideravelmente de Raul Seixas nessa parte. Proponho um brinde ao pesquisador desse documentário!

É necessário um momento Caetano também. Em determinada cena ele começa a tocar Terra. Mas Terra não tem nada a ver com Humberto Teixeira. Fala do tempo em que esteve preso. Ele continua a canção até o verso “Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba...”. Para (caiu o acento diferencial) de cantar e diz: “Aqui estava falando de Humberto Teixeira.” Mais um brinde, por favor.

Por fim, três definições de sertanejo citadas no filme:

Euclides da Cunha: “O sertanejo é antes de tudo um forte.”

Monteiro Lobato: “O sertanejo é anêmico.”

Humberto Teixeira: “O sertanejo é um homem que planta e dança.”


OLEO DO DIABO - 04-10-2008
Mais uma dose de nuvem, please

Antes de morrer, Humberto Teixeira, o desconhecido mais importante do Brasil, disse que tinha um sonho mais grandioso e impossível que o de Dom Quixote, que era ver um mundo sem fronteiras, unido e em paz. Teixeira foi autor de Asa Branca, em parceria com Luiz Gonzaga e de outras 400 canções, muitas delas clássicos da música brasileira, mas seu nome sempre foi obscurecido pelo fato de nunca ter sido um intérprete, apenas um compositor. Mas foi uma escolha sua e os direitos autorais de tantas canções de sucesso lhe asseguraram sólida fortuna e uma elegante vida de boemia numa época de ouro da cidade maravilhosa, quando não havia violência nas ruas e a expansão desenfreada de favelas e comunidades carentes ainda não ocorrera.

Nesta sexta-feira, 3 de outubro, estreiou o filme Humberto Teixeira: o homem que engarrafava nuvens. O título faz referência a uma entrevista do poeta, em que ele diz que passava as tardes, em sua casa em São Conrado, contemplando as nuvens e brumas, admirando-lhes as formas e cores, e engarrafando-as para bebê-las como poesia. Inventei um pouco aí, mas ele disse mais ou menos isso.

Teixeira foi o mentor intelectual de Luiz Gonzaga. Enquanto Gonzagão consagrou-se como "rei do baião", Teixeira ficou conhecido como "doutor do baião". Formado em direito, Teixeira também elegeu-se deputado federal e foi autor da lei Humberto Teixeira, que concedeu mais direitos aos artistas.

O documentário, escrito e dirigido pelo premiado Lírio Ferreira, foge a todo convencionalismo e conta a vida do poeta com uma linguagem original, delirante, sem perder o fio da meada. O texto percorre as raízes do baião, mostra cenas do nordeste profundo, traz imagens antigas e inéditas do Rio, depoimentos de artistas como Caetano, Gil, Belchior e, sobretudo, muita música, com artistas como Alceu Valença, Raul Seixas, Chico Buarque, Maria Bethania, interpretando canções de Teixeira.

O filme é emocionante do início ao fim, mas uma cena em particular me levou quase às lágrimas. Em Nova Iorque, o cantor norte-americano David Byrne canta uma versão em inglês de Asa Branca, com tanto sentimento que remete ao sonho de Teixeira sobre um mundo mais unido, sem fronteiras. Pensei: a arte é o principal elo existencial entre os povos. Cantamos e ouvimos canções dos Beatles, Rolling Stones, Edit Piaf, Bob Dylan, com emoção comum em todo planeta. Byrne explicou que, entendida a letra de Asa Branca, que conta a história de um exílio causado pela seca, comparou-a uma situação parecida ocorrida no Texas e Arizonas, quando fazendeiros tiveram que abandonar suas terras e amores, pela falta de chuva e portanto de trabalho e renda, e migraram para as cidades litorâneas da Califórnia. Muitas canções foram escritas, então, sobre o tema, e Byrne lembrou ter passado parte de sua infância e juventude ouvindo e sentindo essas manifestações.

Byrne nem precisava ter explicado. Não é preciso conhecer a seca para sentir a dor e a nostalgia de Asa Branca, assim como não é preciso ter vivido a II Guerra para experimentar o desespero e a angústia de um romance de Primo Levi. A arte, de alguma forma, substitui a experiência. Em alguns casos, até supera a experiência. Em outros, não. A arte é adversária da experiência real, mas consegue reunir a quinta-essência da realidade, dos sentimentos, do sofrimento, e transmitir essa riqueza de um ser humano a outro.



NOTAS MUSICAIS - Outubro 04, 2008
Lírio descobre Teixeira em jornada documental

Ao som de Légua Tirana , a atriz Denise Dummont, séria, caminha pelo cemitério rumo ao túmulo do compositor Humberto Teixeira (1915 - 1979), revelando logo de cara que pouco ou nada conhece sobre a figura deste homem, que, além de ter sido advogado e parceiro de Luiz Gonzaga (1913 - 1989) na criação de grandes clássicos do cancioneiro brasileiro (entre eles, Asa Branca ), veio a ser também seu pai. Assim começa O Homem que Engarrafava Nuvens , documentário produzido por Dummont, com direção firme de Lírio Ferreira e fotografia de Walter Carvalho, para descobrir e mostrar quem foi Humberto Teixeira. Ao acompanhar a jornada emocional de Dummont, Lírio desvenda boa parte do véu que cobria o homem e o artista - este nem sempre creditado como devido quando o assunto é o repertório áureo de Gonzaga, o vitalício Rei do Baião.

Em off, a voz do próprio Humberto Teixeira - extraída de depoimento biográfico prestado pelo compositor em 1977 - costura a narrativa. Nascido em Iguatu, cidade interiorana de um Ceará castigado pela seca, o artista conviveu desde sempre com o baião - ouvido em sua forma seminal nas festas e cantorias nordestinas - e levou na bagagem essa intimidade com o ritmo quando partiu para o Rio de Janeiro (RJ) com o intuito de virar médico. O filme conta que ele virou, na verdade, advogado e que - anos depois - faria a viagem de volta como candidato a Deputado Federal pelo seu Ceará. Entre uma viagem e outra, Teixeira  mostrou  ao  mundo  como  se  dança e compõe o baião

pela voz de Luiz Gonzaga. Mas somente depois de ter suas primeiras músicas rejeitadas por estrelas da época - como Carmen Miranda (1909 - 1955) e Orlando Silva (1915 - 1978). A primeira música gravada, Sinfonia do Café , abriu caminho para o registro do samba Deus me Perdoe , sucesso na voz de Cyro Monteiro no Carnaval de 1945. Mas nenhum sucesso dessa fase inicial se comparou ao estouro do baião, que, em seu apogeu, na primeira metade dos anos 50, fez o Brasil descobrir a sanfona. A era de ouro do gênero - que coincide com a industrialização do Brasil - começou a ser formatada em 1946 com a gravação de Baião pelo conjunto Quatro Ases e Um Coringa. O baião - como ressaltam os cantores Fagner e Otto nos depoimentos inseridos no bom roteiro assinado por Lírio Ferreira - era a música que expressava os sentimentos dos nordestinos saudosos que haviam migrado para o Sul para fugir da seca e da fome. "Ou você descia para São Paulo ou subia para São Pedro", ironiza o cearense Belchior, em vã tentativa de fazer humor negro.

O documentário entremeia gravações antigas com registros contemporâneos feitos em estúdio por cantores do naipe de Caetano Veloso (Baião de Dois), Gal Costa (Adeus, Maria Fulô - com o auxílio luxuoso da sanfona de Sivuca) e Chico Buarque (Kalu, sucesso de Dalva de Oliveira que teve como musa inspiradora Mafalda, caso extra-conjugal de Teixeira). Números captados na edição do Prêmio Rival de Música que homenageou Teixeira também pontuam a narrativa. Já Asa Branca é ouvida tanto no registro estilizado do norte-americano David Byrne - para exemplificar o alcance mundial da obra musical de Teixeira - como na ruminante releitura feita em 1972 por um exilado Caetano Veloso (editada no disco Transa), na roqueira visão de Raul Seixas (1945 - 1989) e ainda na intensa interpretação apresentada por Maria Bethânia no show Dentro do Mar Tem Rio , em 2006 e 2007. Primo-irmão da Asa Branca , Assum Preto é ouvido na memorável gravação de Gal Costa entre imagens de filme sobre a cantora feito pelo cineasta Antonio Carlos Fontoura.

Se o compositor é coberto de justos elogios, o homem tem desvendada sua face mais machista quando o assunto são as mulheres oficiais. A primeira delas, Ivanira Teixeira, lembra como Humberto a fazia tirar qualquer maquiagem mais vistosa. Já a pianista Margarida Jatobá, mãe de Denise Dummont, vai mais fundo e protagoniza o momento mais revelador do filme em conversa emocionada com a filha que foi impedida de criar por ter largado Teixeira - após longo período de desentendimentos e opressão - para viver um amor com Luiz Jatobá. "Ele queria me transformar na 'mulherzinha de Humberto Teixeira'. Não deu", justifica Margarida (morta em 2007), num depoimento pungente.

Por ter tomado as dores de Teixeira na separação de Margarida, a sociedade machista da época afastou Dummont de sua mãe e a uniu ao pai. Contudo, em seu depoimento final, a atriz conta que somente se sentiu realmente próxima do genitor na véspera da morte de Teixeira, em 3 de outubro de 1979. Um almoço dominical tornou menos frouxo o laço que ligava pai e filha. Laços que se estreitam postumamente nesta bela jornada documental e emocional empreendida por Denise Dummont para jogar luz sobre a obra forte de Humberto Teixeira e expor o homem por trás dela.


REVISTA ZÉ PEREIRA - 4 de outubro de 2008
Como se dança o baião

O diretor Lírio Ferreira e a atriz Denise Dummont, filha de Humberto Teixeira, subiram ontem ao palco do Palácio 1 para apresentar o vibrante “O homem que engarrafava nuvens”. Foi bonito ver o cinema lotado para ver um documentário sobre o parceiro de Luiz Gonzaga que preferiu viver à sua sombra. E “O homem que engarrafava nuvens” foi várias vezes aplaudido em cena aberta durante a sessão.

Em sua fala, Lírio lembrou que o Palácio vai fechar e que, portanto, aquela seria a única vez que o filme seria exibido lá. O diretor de “Baile perfumado” e de “Árido movie” é o mais produtivo cineasta pernambucano de sua geração - este é o seu quarto-longa metragem - e com este filme e o anterior, “Cartola”, também já pode ser considerado um dos grandes documentaristas do cinema brasileiro. Vale destacar também a fantástica pesquisa de imagens do documentário, de Antônio Venâncio, e sua fotografia em 16 mm, assinada pelo mestre Walter Carvalho.


Topo