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Poluição Marinha


A terra possui 71% de sua superfície coberta com água. Desses 71%, o mar é responsável por 97,2%. Dessa forma, é inegável que o mar representa uma parte fundamental da biosfera sendo, também, considerado fonte importante de recursos energéticos, alimentares e minerais, muitos deles renováveis.

O meio ambiente marinho caracterizado pelos oceanos, mares e os complexos das zonas costeiras formam um todo integrado que é componente essencial do sistema que possibilita a existência da vida sobre a Terra, além de ser uma riqueza que oferece possibilidade para um desenvolvimento sustentável.

Apesar de o homem achar que, por possuir uma área extensa, o mar conta com uma infinita capacidade de prover recursos naturais e absorver todos os resíduos que são nele despejados, isso não é verdadeiro. Cada vez mais, poluentes de diferentes tipos e graus de toxicidade são lançados no meio-ambiente marinho e, conseqüentemente, ocasionam vários tipos de problemas. A poluição produzida pelo homem que já atinge inclusive o Ártico e a Antártida, onde já se apresentam sinais de degradação.
poluição marinha

A poluição marinha é definida oficialmente pela International Commission for the Exploitation of the Seas (ICES) - Comissão Internacional para a Explotação dos Oceanos como "a introdução pelo homem, direta ou indiretamente, de substâncias ou energias no meio marinho que resultam em efeitos deletérios como prejuízo aos recursos vivos; prejuízo à saúde humana; dificuldade das atividades marítimas, inclusive a pesca; impedimento da utilização da água para os fins adequados e redução das amenidades".

A civilização humana sempre utilizou os oceanos e os mares para extrair seu sustento. Mais da metade dos 6 bilhões de habitantes do mundo vivem nas costas ou a 60 km delas, o que propicia o fluxo dos dejetos diretamente nas regiões costeira e os problemas deste meio ambiente continuam a crescer.

A explosão demográfica humana, a grande quantidade de cidades, a aglomerações de pessoas no litoral, a poluição, o desenvolvimento tecnológico que exige mais custo ambiental das últimas décadas e a pesca predatória principalmente, são fatores formadores de grandes pressões sobre os recursos hídricos marinhos, que já estão mostrando esgotamento. Inclusive a poluição pode atingir drástica e rapidamente o ambiente marinho com morte instantânea do plâncton, ou ainda pela bioacumulação que é o fenômeno através do qual os organismos vivos acabam retendo dentro de si algumas substâncias tóxicas que vão se acumulando também nos demais seres da cadeia alimentar até chegar ao homem, sendo um processo lento de intoxicação muitas vezes letal.

Esse tipo de poluição ocorre porque tanto os mares quanto os oceanos recebem diariamente, em todo o mundo, uma infinidade de poluentes como esgoto doméstico, industriais, lixo sólido que são levados pelos rios que deságuam no mar.

lixo do mar

poluição mar
Estimativas revelam através de cálculos que cerca de 14 bilhões de toneladas de lixo são acumuladas nos oceanos todos os anos.

A imensa quantidade de substâncias lançadas nos oceanos produz o aparecimento de organismos que prejudicam o desenvolvimento da vida marinha e também compromete o percentual de alimentos. Os oceanos recebem boa parte dos poluentes dissolvidos nos rios e riachos, além do lixo dos centros industriais e urbanos. Em muitas regiões litorâneas, onde isso ocorre, as praias tornam-se impróprias para o banho de mar. O elevado nível de concentração de substâncias compromete a produção de oxigênio e de plânctons, que são responsáveis por produzir cerca de 40% do nosso oxigênio. Os excessos de material orgânico no mar acabam formando as chamadas "marés vermelhas", que matam os peixes e tornam os frutos do mar impróprios para o consumo. É importante salientar que os oceanos não são separados, isso significa que as poluições estão “globalizadas”, assim como os impactos.

Mais de 70% da poluição dos oceanos é produzida em terra e encaminhada pelos rios, proveniente de atividades humanas, como urbanização, agricultura, turismo, desenvolvimento industrial, despejo de esgoto não tratado, dejetos industriais e falta de infra-estrutura costeira. Mais do que a pesca predatória, o despejo de produtos tóxicos nos oceanos está se tornando o fator de maior risco para as espécies de fauna e flora marinhas. O excesso de nutrientes levados ao mar pelas águas dos rios, principalmente o nitrogênio usado como fertilizante na agricultura, estimula a reprodução de algas nocivas que reduzem o oxigênio e estão formando "zonas mortas" nos oceanos. O número de áreas marinhas pobres em oxigênio vem dobrando a cada década. Dados da ONU indicam que já existem 150 "zonas mortas" no mundo. Algumas chegam a ter 70 mil quilômetros quadrados, como é o caso dos mares Báltico e Negro. O Golfo do México é afetado por nutrientes levados pelo rio Mississipi.

As regiões estuarinas, os manguezais, os corais e as baias são os locais de procriação da grande maioria da fauna marinha. São nestes locais que principalmente camarões e centenas de espécies de peixes de potencial alimentar humano se reproduzem e criam. Justamente aí, nestes riquíssimos ambientes marinhos é que estão os maiores efeitos da poluição, pois é onde são despejados diretamente os resíduos tóxicos das cidades ribeirinhas, das inúmeras indústrias e da agricultura, inclusive muitas vezes trazidos de grandes distâncias por rios que deságuam nestes locais.

Nas regiões estuarinas é que encontramos vida em profusão, ante a riqueza de sedimentos orgânicos vindo dos rios, fornecendo excelente condição para os primeiros dias de vida de muitas espécies de peixes, sem contar que muitas voltam aos estuários para subir os rios para procriar.

Os manguezais que são riquíssimas fontes energéticas e de primordial importância para a vida de milhares de espécies existem em quase todos os continentes tropicais e subtropicais e representam cerca de 25.000 Km 2 e ocorrem em quase todo o litoral desde o Oiapoque à Laguna, em Santa Catarina. São conhecidos como os “berçários da vida marinha” e por estarem ameaçados pela ação antrópica devem ter maior atenção e proteção.

Os recifes de corais estão entre os ecossistemas de maior biodiversidade que há na Terra, retendo uma parcela substancial do alicerce biológico da vias sobre o planeta. Já as baías formam ambiente tranqüilo para a criação e crescimento de muitas espécies de peixes, e de outras que procuram refúgio temporário de predadores ou de correntes marítimas.

Todas estas regiões importantes estão sendo atingidas pelos atos degradatórios do homem e a situação do ambiente marinho está ficando crítica em muitos lugares do globo.

Durante o século 20, cerca de 75% dos estoques de peixes e crustáceos do mundo foram comprometidos pela pesca predatória. No século 21, o vilão dos mares será o baixo nível de oxigênio, gerado por impactos ambientais causados pelo ser humano nos ecossistemas terrestres. Cerca de 120 milhões de toneladas de nitrogênio são usadas a cada ano como fertilizante. Desse total, só 20 milhões são retidos nos alimentos, enquanto o restante é despejado pelos rios no mar. O lançamento de esgoto não tratado e as crescentes emissões de gases poluentes são outros fatores que reduzem o oxigênio dos oceanos. Quando a poluição dos oceanos é feita por matéria orgânica, geralmente esgotos não tratados, há uma violenta proliferação de bactérias e microorganismos patogênicos que atacam a saúde, com doenças como diarréias, hepatites, micoses. Basta lembrar a grande epidemia de cólera de 1973 na Itália, provocada pela ingestão de mexilhões contaminados.


A ONU propõe a redução imediata das emissões, como ocorreu no rio Reno, que conseguiu diminuir em 37% a quantidade de nitrogênio lançada no Mar do Norte, através de um pacto assinado por todos os países da região.

A contaminação marinha e costeira por esgoto e lixo tem suas conseqüências ambientais e sociais sentidas de forma instantânea. Além disso, a descarga sedimentar dos rios proveniente do desmatamento e do mau uso do solo, contribuem para o aumento da contaminação das áreas costeiras. O Brasil possui parte considerável de sua população vivendo em favelas, muito abaixo da linha da pobreza, e não possuindo acesso à higiene sanitária. O lixo e o esgoto produzidos nesses locais não segue o destino correto e, conseqüentemente, acarretam uma contaminação costeira e marinha, alterando a vida de quem vive perto do mar e de quem vive dos recursos do mar.

A contaminação por poluentes químicos, principalmente hidrocarbonetos de petróleo e outros compostos orgânicos persistentes, além, é claro, dos metais pesados, é freqüentemente pontual, uma vez que depende de pontos de exploração e operações com cargas de petróleo e isso não ocorre em toda extensão da costa brasileira.

Recuperar o meio-ambiente costeiro depende essencialmente de uma combinação de esforços que passam por humanizar a vida da população até a aplicação adequada de recursos financeiros para recuperar áreas já muito contaminadas ou degradadas.

Os principais grupos de contaminantes marinhos estão representados pelos nutrientes inorgânicos, metais, hidrocarbonetos de petróleo, organoclorados, organoestanhos, dioxinas e furanos. O grupo mais conhecido e especialmente citado acima é o dos nutrientes inorgânicos, que carregam altas dosagens de fosfato e nitrogênio e têm como agente causador os esgotos urbanos despejados no mar, principal origem de microorganismos causadores de doenças como hepatite, por exemplo.

Os metais, originados da descarga elevada de poluentes pelas indústrias têxtil, química, alimentar e de papel e celulose,  tornaram-se  objetos  de pesquisas. Os litorais de
tv

vaso

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Santos, Ubatuba, São Sebastião, Sepetiba (RJ), Paranaguá (PR) e a Bahia de Todos os Santos são locais monitorados e pesquisados por mais de 20 laboratórios, que controlam os níveis de toxicidade das águas.

Outro grupo de contaminantes bastante conhecido é o hidrocarbonetos do petróleo. Como grande parte das jazidas estão em alto mar, a possibilidade de derramamento, a perda no transporte e na queima do petróleo são responsáveis por essas substâncias tóxicas na água do mar. Além disso, o uso diário do petróleo e derivados, como a gasolina, também aporta uma carga significativa deste contaminante.

Um grupo considerado de alta capacidade tóxica é o organoclorados. Essas substâncias estão presentes na composição de praguicidas, inclusive no proibido DDT. Esses organoclorados persistem no ambiente por muitos anos e são remobilizados do solo para o veio aquático e daí seguem rumo ao oceano.

O grupo dos organoestanhos, presentes em tintas de embarcações, tem sido objeto de estudo. O organoestanho também é proibido em praticamente todo o mundo Essas substâncias são capazes de afetar os hormônios dos peixes provocando, inclusive, o hermafroditismo, ou seja, a troca de sexo de invertebrados.

As dioxinas e furanos, que pertencem à categoria dos organoclorados, são considerados de alta toxicidade, pois são sub-produtos industriais derivados da produção de praguicidas e plásticos. Fazem parte do grupo denominado POPs (poluentes orgânicos persistentes). Depois de liberados no meio ambiente, não se degradam facilmente. Penetram na cadeia alimentar onde acumulam-se nos tecidos gordurosos dos animais. Os POPs não são solúveis em água e não são metabolizados com facilidade. Ocorre, então, o processo de bioacumulação, que afetam os animais do topo da cadeia alimentar. Nela está incluído o homem. Os POPs são substâncias que causam câncer e afetam o sistema imunológico e cardiovascular.

vazamento

ave petrolizada
A poluição por óleo

A poluição do mar é resultado das mesmas ações geradoras da poluição da água. Porém, existe uma diferença. O mar constantemente corre riscos de acidentes com navios petroleiros, que cruzam os oceanos diariamente e em grande quantidade.

O derramamento de petróleo é considerado um dos maiores e mais graves desastres ecológicos. Os ecossistemas, quando afetados, só conseguem se recompor após dezenas de anos, desde que sejam limpos rapidamente e desde que não haja mais nenhum outro problema sério nesse longo período.

Os navios petroleiros e os oleodutos contribuem para a poluição marinha. O petroleiro pode causar contaminação das águas quando ocorrem vazamentos e após ter retirado o produto permanecem alguns resíduos, então é realizada uma lavagem nos tanques do navio e a água suja com petróleo é jogada no mar. No caso de oleodutos, desastres acontecem quando o encanamento se rompe produzindo vazamentos. Esse tipo de poluição marinha é chamada de "maré negra".

Todos os anos são transportadas nove bilhões de toneladas de petróleo pelo mar. Anualmente, a humanidade despeja 130 milhões de litros de petróleo nos oceanos do mundo. Este dado assustador não inclui os gigantescos derramamentos acidentais,  como  o  desastre causado pelo
navio Exxon Valdez, em 1989, na costa do Alasca, EUA, que chocou-se contra os recifes derramando 40 milhões de litros de óleo no oceano. Vários animais morreram aos milhares e os que sobreviveram ficaram intoxicados propagando os efeitos do acidente.

O derramamento de petróleo causa um enorme desequilíbrio nas regiões afetadas. O petróleo flutuando não permite que a luz do Sol penetre na água, inviabilizando o processo de fotossíntese da vegetação aquática. Sem oxigênio e alimento, a morte dos peixes, em grande escala, é inevitável. Aqueles que chegam à superfície ficam impregnados de óleo e morrem por asfixia.

As aves que se alimentam de peixe também acabam morrendo ou acabam contaminando os demais animais da sua cadeia alimentar. Suas penas, que servem para manter o corpo aquecido nas épocas de frio, criando uma espécie de colchão de ar quente quando arrepiadas, com o óleo perdem essa função, causando-lhes a morte pelo frio.

Todo o ecossistema aquático da região e de grande extensão dos arredores fica comprometido. As regiões costeiras atingidas, além dos prejuízos ambientais, acabam sofrendo perdas muitas vezes irreparáveis nas suas atividades econômicas, sendo diretamente atingidas as atividades de pesca e de turismo e indiretamente todas as demais atividades.

A poluição causada pelo plástico


Um vírus industrial vem contaminando os ecossistemas marinhos de forma devastadora. Sua sigla circula pelas guias de exportação e importação do setor petroquímico. São os NIBS, umas bolotinhas brancas com tamanhos que variam entre 1 e 5 mm transportadas por pelo menos 20% da frota mundial de navios mercantes. 

Nibs já são encontrados em áreas remotas dos oceanos, disfarçados entre os grãos de areia das praias do mundo inteiro. Em linguagem técnica, os nibs são o resultado da peletização industrial de resinas sintéticas oriundas da polimerização de hidrocarbonetos derivados de petróleo e gás. O objetivo dessa fragmentação em mini-pelotas é facilitar a armazenagem, transporte e o processamento da matéria-prima do plástico. Se por um lado esse comoditie diminui a pressão sobre matérias-primas naturais, principalmente as árvores, por outro contamina o ambiente com resíduos sólidos de um modo nunca visto. Podemos ver sacos e pedaços de plásticos por toda parte, de vários tamanhos. Nesse caso o problema é mais estético. E os pedaços que vemos podem ser evitados com programas de educação ambiental e de reciclagem. Mas e os que não vemos? Nem sequer sabemos que existem. Há um processo de contaminação crônica e cumulativa de microlixo plástico nos oceanos que começa a preocupar governos, ongs, órgãos ambientais, cientistas e ambientalistas do mundo todo.
nibs

pellets

Tudo começou quando um infeliz qualquer, possivelmente engenheiro da tecnologia petroquímica, imaginou um modo prático de transferir matéria-prima para a fabricação de plástico inspirado no modelo agroindustrial de transporte de grãos de soja. Pra variar pensou apenas em uma parte do processo. Imaginem aquelas montanhas de soja estocadas nos silos e armazéns. Dunas orgânicas. Agora imaginem dunas sintéticas de nibs em armazéns da indústria petroquímica. São igualmente transferidos para caminhões ou vagões de trem através de esteiras rolantes a céu aberto. O transporte terrestre leva invariavelmente até o porto mais próximo, onde são novamente transferidos por esteiras rolantes para sacos de papelão enormes e containeres que são acondicionados no porão dos navios. Daí, são transportados para o outro lado do oceano e descarregados.

Durante o transporte e transferência de cargas, a perda é inevitável. Ventos fortes e enxurradas de água de chuva roubam parte da carga que vaza das esteiras rolantes ou dos sacos de papelão e, na maioria das vezes, acaba no mar. As correntes de maré e circulação oceânica se encarregam de transportar e dispersar os pequeninos e terríveis nibs, num processo lento e contínuo, que os leva para todas as praias do mundo e as áreas mais remotas dos oceanos do planeta, como o Ártico, Antártico, Mar dos Sargassos e giros subtropicais do Pacífico. Já em 1980 foram detectados densidades de mil e quatro mil nibs por km 2 nas regiões temperadas dos Oceanos Atlântico e Pacífico.

Os Estados Unidos são campeões da produção de plástico peletizado. São cerca de 27 milhões de toneladas ou 1 quadrilhão dessas pelotas produzidas anualmente e transportadas entre os pólos petroquímicos americanos e os portos exportadores – que os levam aos portos importadores – que os distribuem para outros centros industriais europeus e asiáticos. No início da década de 90, os congressistas americanos, pressionados pela opinião pública, além de cientistas e ambientalistas exigiram a formação de uma força tarefa governamental, liderada pela NOOA e pela Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, 1992). Tornou-se urgente um diagnóstico da contaminação dos nibs na zona costeira americana e no mundo. O relatório da EPA revelou que os nibs já eram parte inseparável do lixo em suspensão e do sedimento de fundo e da areia da praia de todos os oceanos, sem exceção. Revelou também que a contaminação se dá ao longo do processo industrial de peletização, armazenagem, transporte e processamento do material.

Agora, vamos supor que haja uma perda mínima, irrisória de 0,001% dessa matéria durante o transporte terrestre e marítimo. Mesmo sendo essa perda infinitamente menor do que a média entre 0,1 e 0,25% diagnosticada no relatório da agência americana, isso ainda representa 10 bilhões de nibs que podem chegar à zona costeira pelas linhas de drenagem urbanas e industriais todos os anos. Mesmo que as estimativas sejam exageradas, e que o número seja muito menor, os nibs duram de 1 a mais de 10 anos no mar, dependendo das condições ambientais que aceleram ou retardam a degeneração do produto, bem como da natureza do polímero e dos aditivos adicionados para aumentar a resistência a UV's, temperatura ou alterar a densidade. Com isso, ocorre a bioacumulação das pelotas virulentas na teia alimentar.

plástico
A maioria dos nibs são esféricos, ovais ou cilíndricos, e a cor é normalmente branca ou transparente. Portanto, são quase que imperceptíveis ao olho humano. Mas são detectados pelos olhos de animais famintos que os confundem com comida em suspensão ou na beira da praia. A contaminação da teia alimentar por nibs está crescendo de modo crônico e cumulativo. Como um pesticida sólido. Partículas estranhas e atraentes que invadem o estômago das criaturas marinhas que, como criançinhas inocentes, aceitam balinha de uma natureza estranha. Mais uma praga industrial que contamina nossos animais.

Aves e tartarugas marinhas são os mais ameaçados, tendo em vista a freqüência com que nibs são encontrados no trato digestivo desses animais.  Pesquisas  indicam que pelo
menos 80 espécies de aves marinhas ingerem nibs ativamente ou passivamente através da teia alimentar. Dentre as aves, principalmente o grupo da ordem Procelariformes, que inclui os albatrozes e petréis. Essas aves têm o hábito de se alimentar apenas na superfície do mar, com mergulhos curtos ou simplesmente ciscando ovos de peixes, lulas e pequenos animais planctônicos. Estudos indicam que os nibs podem permanecer no trato digestivo das aves entre 10 a 15 meses, ocupando espaço, diminuindo a eficiência alimentar e a absorção de nutrientes, causando enfraquecimento e morte dos animais. Produtos químicos que são adicionados aos nibs para alterar suas características físicas e químicas, ou contaminantes absorvidos pelos nibs durante sua permanência em suspensão na água, têm efeito fisiológico tóxico nos animais, prejudicando processos de migração e reprodução.

O microlixo plástico tende a ser leve e geralmente flutua na superfície do mar, agregando-se ao longo de zonas de convergência de massas de água, onde o detrito orgânico e lixo industrial se acumulam. Essas regiões são locais de alimentação de tartarugas marinhas. O lixo plástico serve de substrato de fixação para vários invertebrados marinhos, enriquecendo-os com matéria orgânica e dando uma aparência mais “apetitosa” ao plástico.

Mamíferos e tubarões também são vítimas do lixo plástico. Frequentemente encontra-se tampas de caneta, linhas de nylon e pequenos resíduos plásticos no conteúdo estomacal de animais mortos acidentalmente.

Apesar do tamanho, os nibs também são colonizados por bactérias e invertebrados bênticos, iludindo albatrozes e petréis, sobretudo em períodos de escassez de alimento quando o hábito alimentar torna-se menos seletivo. Além disso, a ingestão de nibs diminui a sensação de fome das aves, que se alimentam menos. A presença dos nibs no estômago de aves da região Sul do Brasil tem sido comprovada. A densidade de nibs encontrados nas praias chega a milhares por metro quadrado.

Os nibs são a pior causa do microlixo sólido e podem causar danos irreversíveis nas comunidades biológicas marinhas se a contaminação continuar indefinidamente. A única solução é a gestão mais adequada e o controle rigoroso da atividade de transporte e armazenagem por parte da indústria petroquímica, evitando perdas e prejuízos para a indústria e, sobretudo, para o oceano global.

Nós e a poluição dos oceanos

Muitas vezes, quando nos deparamos durante um mergulho ou numa imagem televisiva, com um invertebrado exótico, um espongiário raro ou um peixe com um comportamento inteligente e inofensivo, pensamos como é possível que ainda haja esta ou aquela espécie em perigo devido às grandes indústrias, que fazem descargas para o oceano sem qualquer tipo de consciência. No entanto, temos diversos comportamentos no dia-a-dia que, pela sua simplicidade e mecânica, nos passam despercebidos e dos quais desconhecemos as potenciais consequências. Diversos são os exemplos que podem ser dados para evitar que esses mesmos comportamentos deixem de ser mecânicos e passem a ser atitudes que nos lembrem algo, por exemplo:

1. O simples comportamento doméstico, utilizando produtos de limpeza que nos parecem tão eficientes como os detergentes e desinfetantes sanitários é um bom exemplo da nossa contribuição diária para a degradação de muitos ecossistemas marinhos. Estes produtos são constituídos por compostos químicos tensoativos de forte atividade aniônica que emulsionam as gorduras, mas têm sérias repercussões em vários aspectos biológicos como a produção primária (transformação química de matéria inorgânica em orgânica) e a capacidade reprodutora de diversas espécies. Existem vários detergentes biodegradáveis, constituídos por tensoativos não iônicos, ácidos graxos vegetais, óleos essenciais naturais, essentos de fenóis, cresóis, benzenos e clorados que são alternativas aos produtos “tradicionais”. Outra opção, são as receitas caseiras que funcionam grande parte das vezes como, sumo de limão ou vinagre diluído em água são bons desengordurantes, água quente com bicarbonato de sódio é uma óptima solução na limpeza do forno, a utilização de naftalina pode ser substituída por saquinhos com flores de lavanda, entre outras.

2. Os detergentes domésticos, como os de lavagem de roupa (ricos em fosfatos) e os fertilizantes químicos utilizados na agricultura, enriquecidos em nitratos, fosfatos, sulfatos de potássio, amônio, magnésio e cálcio, provocam a degradação das águas, pois enriquecem-nas excessivamente  com  nutrientes.  Estes limitam a atividade

lixo

petróleo

poluição

 

biológica em locais de dimensões reduzidas como lagos e lagoas. O fenômeno referido é denominado eutrofização e consiste na formação de uma camada espessa de algas que impede a penetração de luz a maiores profundidades, conduzindo à respectiva desertificação. Em alguns casos, a anoxia das águas provoca a morte de muitos peixes por falta de oxigênio e, na falta de macro-algas, muitas espécies herbívoras deixam de ter alimento suficiente para a sua sobrevivência.

3. Os pesticidas utilizados na eliminação de pragas agrícolas, constituídos por organoclorados, organofosforados, carbamatos, sulfato de cobre, apresentam uma elevada afinidade para os tecidos gordos dos organismos marinhos e por isso podem dar origem a dois grandes problemas: em épocas de escassez de alimento, os indivíduos utilizam as suas reservas adiposas, aumentando deste modo as concentrações destes compostos no organismo, que podem atingir níveis tóxicos. Outro risco é a transmissão ao longo da cadeia alimentar e a bioamplificação das concentrações, o que leva a níveis tóxicos em organismos que ocupam o topo da cadeia como os mamíferos marinhos, aves, etc.

4. Os produtos oriundos das baterias inutilizadas e das pilhas recarregáveis, são igualmente poluentes, ricos em metais pesados como o cádmio, mercúrio, níquel e chumbo, com uma forte capacidade de acumulação nos tecidos e bioamplificação na cadeia trófica. O consumo de organismos contaminados, como os moluscos (mexilhão, lapas, ostras, etc.) que apresentam maior facilidade em acumular metais pesados, pode provocar doenças neurológicas, pulmonares e motoras. A reciclagem e o reaproveitamento são alternativas pelas quais devemos optar de forma a prevenir este tipo de contaminação ambiental.

5. A limpeza e reparação dos carros e barcos origina uma série de produtos ricos em óleos minerais e tintas que, no oceano, se comportam como verdadeiras armadilhas, prejudicando mamíferos, tartarugas e aves marinhas. Estes produtos provocam a asfixia e, no caso das aves, destroem irreversivelmente a camada permeabilizante das penas, provocando-lhes a morte.

casco      reparo

6. As tintas anti-vegetativas (constituídas, essencialmente, por TBT) utilizadas na pintura dos cascos dos barcos para impedir a incrustação de organismos e o desenvolvimento de algas têm consequências graves no meio marinho. O TriButilEstanho (TBT) é um composto orgânico com estanho, altamente tóxico e letal para vários organismos planctônicos, incluindo larvas de moluscos. Ao nível do desenvolvimento dos organismos, afeta a reprodução, provoca distorções genéticas por alteração dos cromossomas e promove o desenvolvimento de doenças como, por exemplo, tumores.

Estes são muitos dos exemplos de poluição diária que muitas das vezes podemos evitar. Já é um começo se não subestimarmos o potencial efeito nefasto dos produtos que utilizamos no dia a dia e procurarmos utilizar produtos biodegradáveis e moderar a utilização dos que o não são.

É verdade que o oceano tem grande capacidade de autodepuração como a diluição, dispersão, sedimentação de partículas sólidas, vaporização, destruição de matéria orgânica por oxidação e capacidade depuradora das algas e dos microorganismos. No entanto, não podemos esquecer que a introdução de substâncias poluidoras no meio marinho tem um impacto ecológico muito importante, podendo afetar o equilíbrio dos ecossistemas oceânicos. Essas substâncias podem acumular-se em espécies marinhas chegando, em certos casos, a atingir níveis de toxicidade perigosos para a saúde pública.

Os oceanos não são ilimitados e, como tal, a sua utilização como reservatório de lixo provocado pela “civilização”, tem de ter um fim. Se a vida começou nos oceanos corremos o risco de, através dele, terminar com a vida no planeta.

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